| VARICELA:
POR QUE VACINAR?
Dra.
Lucia Ferro Bricks *
Doutora em Medicina pela FMUSP
A vacina
varicela foi desenvolvida na década de 70 no Japão
e, em 1995, foi licenciada e introduzida no calendário
de rotina dos Estados Unidos, para crianças maiores de
um ano de idade, em esquema de dose única. A cobertura
vacinal na faixa etária de 19 a 35 meses aumentou de 27%,
em 1997, para 88% em 2005.
Após
uma década de uso, verificou-se que a vacina foi capaz
de proteger 70 a 90% das crianças contra todas as formas
da doença. A proteção contra formas graves
foi ainda maior (95 a 98%). As elevadas taxas de vacinação
resultaram em redução significativa no numero de
casos (71% a 84%), hospitalizações por varicela
(88%) e consultas ambulatoriais relacionadas à doença
(59%) e os gastos médicos diretos (hospitalizações
e consultas) foram reduzidos em 74%.
A experiência americana revelou que a vacina é bastante
segura e muito bem tolerada. Ainda se desconhece se a vacinação
em massa irá ou não causar impacto na incidência
do herpes zóster, pois sua incidência é
baixa em crianças; entretanto, os dados atuais indicam
que as crianças vacinadas tiveram menos zoster em comparação
com as não vacinadas.
Infelizmente,
no Brasil, a vacina varicela só está disponível
na rede pública para grupos de risco e contatos de grupos
de risco, como profissionais de saúde e familiares de pessoas
imunocomprometidas. Apesar de estar disponível gratuitamente
para esses grupos, a vacina ainda é subutilizada e não
são raros os casos de transmissão da doença
em ambiente hospitalar, acometendo, inclusive, profissionais de
saúde.
As
estratégias de vacinação indiscriminada,
com introdução de vacinas nos calendários
de rotina, são muito mais efetivas do que as recomendações
restritas aos grupos de alto risco para complicações,
pois além de propiciarem maior cobertura para os grupos
de risco também beneficiam os grupos não vacinados,
através da imunidade coletiva. O impacto da vacinação
em massa foi bastante evidente nos EUA, onde a vacinação
reduziu a carga da doença, hospitalizações
e mortes em vacinados e não vacinados, incluindo crianças
menores de um ano, que são um dos grupos de maior risco
para complicações e hospitalização
por varicela.
Recentemente,
no Congresso Brasileiro de Infectologia Pediátrica, realizado
em Vitória (ES) foram apresentados diversos estudos realizados
em diferentes regiões do Brasil demonstrando que a varicela,
ao contrário do que muitos acreditam, não é
uma doença “benigna’, mas pode causar complicações
graves, que levam à hospitalização, seqüelas
e até a morte. Em todos os estudos, a maioria das
complicações e óbitos ocorreram em crianças
previamente saudáveis”.
Desde
2006, o Comitê Técnico Assessor em Práticas
de Imunização (CTAI) do Ministério da Saúde,
recomendou que a introdução das vacinas varicela,
pneumocócica conjugada 7-valente, meningocócica
C conjugada e hepatite A no calendário de vacinação
de rotina brasileiro, entretanto, para incorporar novas vacinas,
há necessidade de dados sobre carga da doença e
estudos farmacoeconômicos. Como a varicela não é
doença de notificação compulsória
e, muitas vezes, suas complicações ocorrem tardiamente,
a carga da doença e seus custos são subestimados.
Nos
últimos 20 anos, apenas no Estado de São Paulo,
a varicela causou 1.037 mortes, e foi causa de morte associada
em mais 150. A maioria dessas mortes (76%) ocorreu em crianças
menores de 10 anos e a maior taxa de letalidade foi observada
entre os menores de um ano. Considerando que os menores de um
ano não podem receber a vacina, a melhor forma de protegê-los
é incorporar a vacina no calendário de rotina.
Por
que atualmente a SBP preconiza o uso de duas doses da vacina?
Nos
EUA, com a redução na circulação dos
vírus selvagens da varicela na comunidade, surgiram surtos
da doença em ambientes aglomerados (creches, escolas, universidades)
e, atualmente, preconiza-se o esquema de duas doses, sendo a primeira
aos 12 meses e a segunda, em pré-escolares (4 a 6 anos).
Embora
o uso de dose única da vacina tenha sido altamente efetivo
para reduzir a carga da doença, acredita-se que o uso de
duas doses deverá propiciar benefícios ainda maiores
à população, pois existem evidências
de que, com o passar dos anos, a proteção conferida
pela vacina diminui. Como a varicela é doença altamente
contagiosa, mesmo com elevadas coberturas vacinais, não
é possível impedir a circulação dos
vírus e a ocorrência de surtos da doença,
como foi demonstrado nos EUA. Quanto maior o tempo decorrido entre
a vacinação e quanto mais intensa a exposição
(contato domiciliar, hospitalar), maior o risco de falha vacinal,
por isso, acredita-se que duas doses da vacina devem propiciar
menores chances de falha vacinal primária e, possivelmente,
de falhas secundárias (por perda de anticorpos).
Em
2004, foram publicados os resultados de um estudo realizado nos
EUA, comparando a eficácia de uma ou duas doses da vacina,
durante 10 anos. A proteção conferida por duas doses
da vacina foi de 98% e a proteção conferida por
dose única da mesma vacina foi de 94% ( P < .001). As
crianças que receberam duas doses da vacina tiveram chance
3,3 vezes menor em comparação com as vacinadas com
uma dose de desenvolver varicela 42 dias após a vacinação.
Apenas 86% das crianças que receberam dose única
da vacina versus 99% das que receberam duas doses, apresentaram
soroconversão adequada (gpELISA 5 unidade) seis semanas
após a vacinação, indicando que a implantação
da segunda dose da vacina contra varicela poderá reduzir
esses problemas. Além disso, existem evidências de
que a segunda dose da vacina induz maior resposta imune celular
6 a 52 semanas após a vacinação, em comparação
com dose única.
No
Brasil a vacina de varicela só está disponível
gratuitamente nos Centros de Referência de Imunobiológicos
Especiais para grupos de risco (tabela 1) e a cobertura vacinal
é bastante baixa.
No
estado de São Paulo, desde 2003, a Secretaria da Saúde
do Estado de São Paulo (SSESP) preconiza a vacinação
de bloqueio de surtos em creches, mas existem dificuldades para
seguir essas medidas e, nem sempre é possível vacinar
as crianças expostas nas primeiras 72 horas após
o contato com caso índice.
Comparando-se
o número de mortes por varicela em crianças antes
e depois da introdução da vacinação
de bloqueio no estado de São Paulo, notamos tendência
de queda, mas certamente o impacto dessa medida foi substancialmente
inferior ao observado nos EUA, onde a vacina foi introduzida no
calendário de rotina. Como ainda não temos no Brasil
a vacina varicela disponibilizada para todas as crianças,
as mortes e complicações da varicela, que proporcionalmente
ocorrem com maior freqüência em imunocomprometidos,
continuam matando e deixando com seqüelas graves não
apenas nos grupos de risco, mas também, em crianças
previamente saudáveis. Os médicos têm o dever
de orientar seus pacientes sobre os riscos da doença e
os benefícios da vacinação, auxiliando na
conscientização de que a incorporação
da vacina varicela no calendário de rotina deverá
causar maior impacto na redução da morbidade e mortalidade
associadas à doença.
Tabela 1. Recomendações da Vacina contra
varicela
1.
Pré-exposição: Pessoas com mais de um ano
com:
- leucemia
linfocítica aguda em remissão há mais de
um ano, desde que a contagem de linfócitos esteja >
700/mm3, plaquetas > 100.000/mm3 e que não estejam sendo
submetidas à quimioterapia ou radioterapia;
- imunocompetentes não imunes que precisam ser hospitalizadas
em enfermarias onde há caso de varicela, no momento da
internação;
- antes da quimioterapia, em protocolos de pesquisa;
- portadores de nefropatias crônicas;
- pessoas com sindrome nefrótica, de preferência
devem ser vacinadas antes do início da corticoterapia;
quando a vacina for administrada após o início do
tratamento, a vacina só pode ser administrada na fase de
retirada do corticoide, quando a criança estiver recebendo
doses fisiológicas (< 2 mg/kg/dia ou menos de 20 mg
de predinisona ou equivalente/dia);
- doadores de órgãos sólidos e de medula
óssea: a vacina deve ser administrada no mínimo
20 dias antes da realização do transplante;
- pacientes infectados pelo HIV assintomáticos ou oligossintomáticos
(Categoria A1N1): este grupo deve receber duas doses da vacina,
mesmo quando menor de 13 anos;
- pacientes com deficiência isolada da imunidade humoral;
- pacientes com doenças dermatológicas crônicas
graves, como ictiose, epidermólise bolhosa, dermatite atópica
grave e outras;
- pessoas que fazem uso crônico de aspirina;
- pessoas com asplenai anatômica ou funcional;
- portadores de trissomias, como síndrome de Down;
2.
Pós-exposição
- controle
de surtos em ambiente hospitalar nos comunicantes suscetíveis
imunocompetentes maiores de um ano de idade, até 120 horas
após o contágio.
Obs. Em caso de exposição, os imunocomprometidos
devem receber a imunização passiva, independentemente
da condição vacinal.
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